A terapêutica endócrina a longo prazo isolada tem sido o standard of care para doentes com cancro da próstata de alto risco localmente avançado ou metastático desde os anos 1940.
STAMPEDE é um ensaio clínico aleatorizado de vários braços conduzido no Reino Unido e Suíça para investigar de forma eficiente um número de novos tratamentos versus o standard of care em doentes com cancro da próstata de alto risco. O ensaio incluiu homens que estavam a iniciar terapêutica endócrina a longo prazo pela primeira vez (1).
Resultados prévios do estudo demonstraram que docetaxel melhorou a sobrevivência destes doentes comparado com o standard of care (hazard ratio [HR], 0.78) (2), e que acetato de abiraterona com prednisolona também se associou a um benefício de sobrevivência em comparação com o mesmo standard of care (HR, 0.63) (3). “Importava, agora, perceber qual era a associação preferencial”, afirmou o autor principal do estudo, Matthew Sydes, da MRC Clinical Trials Unit da University College London, no Reino Unido.
A análise agora apresentada utiliza dados do ensaio STAMPEDE colhidos prospetivamente para comparar diretamente doentes aleatorizados para os braços de docetaxel e acetato de abiraterona mais prednisolona (AAP) enquanto ambos os braços se encontravam a recrutar doentes. As aleatorizações sobrepuseram-se entre novembro de 2011 e março de 2013. Esta comparação incluiu 566 doentes, 189 dos quais foram aleatorizados para receber docetaxel e 377, para receber AAP, ambos em adição ao standard of care de terapêutica de privação androgénica (com radioterapia para alguns doentes).
O outcome primário de sobrevivência global (OS) estimado foi um HR de 1.16, e a diferença entre os dois tratamentos não foi estatisticamente significativa, com os intervalos de confiança associados às estimativas a favorecer ambos (4).
Para as medidas de outcomes precoces de sobrevivência livre de falência (FFS) e sobrevivência livre de progressão (PFS), as estimativas de efeito do tratamento favoreceram claramente o tratamento com AAP, com HRs de 0.51 e 0.65, respetivamente. As estimativas de efeito do tratamento para as medidas de outcomes tardios de ausência de progressão metastática e ausência de eventos esqueléticos sintomáticos favoreceram também o tratamento com AAP, mas as diferenças entre grupos de tratamento não foram estatisticamente significativas.
Segundo Sydes, “esta comparação não tinha sido potenciada, mas são os únicos dados que temos para comparar diretamente docetaxel e abiraterona neste contexto.”
Segundo o Prof. Nicholas D. James, Investigador Principal do estudo STAMPEDE, “os ensaios individuais sugerem que a abiraterona pode ter um maior impacto na sobrevivência do que o docetaxel, mas tal não se traduziu numa vantagem evidente neste estudo. Ambas as terapêuticas conferem uma vantagem de sobrevivência em relação ao standard of care isolado em homens com cancro da próstata de alto risco a iniciar terapêutica endócrina a longo prazo. Este estudo sugere que iniciar tratamento com qualquer uma destas terapêuticas é aceitável, podendo a escolha depender da disponibilidade de cada uma”.
Esta comparação fornece fortes evidências para a associação de standard of care mais AAP versus standard of care isolado em termos de FFS e PFS, e evidências menos fortes em termos de sobrevivência livre de metástases e eventos de natureza esquelética. Não se observaram diferenças de sobrevivência com standard of care mais docetaxel em comparação com standard of care mais AAP.
Matthew Sydes acrescentou ainda que “só foi possível fazer esta comparação head-to-head devido à natureza em plataforma deste protocolo”. O ensaio STAMPEDE tem um desenho único e já estudou prospetivamente mais de 9000 doentes com cancro da próstata hormonossensível de alto risco ou metastático em comparação com o standard of care. “Estima-se que, em 2025, o estudo venha a ter reportado resultados de dez ensaios clínicos aleatorizados”.
Os perfis de toxicidade foram bastante diferentes nos dois ensaios. Os resultados do tratamento com AAP são consistentes com o ensaio LATITUDE, que também favoreceu AAP em relação ao standard of care em doentes de alto risco (5).
Ambos os ensaios aleatorizados STAMPEDE sustentam o início do tratamento com terapêutica endócrina mais AAP ou seis ciclos de docetaxel. A um e dois anos, a percentagem de doentes com toxicidades de graus 3 ou 4 foi baixa e semelhante entre os dois grupos. “As toxicidades associadas aos seis ciclos de quimioterapia determinarão a decisão por docetaxel, e as toxicidades associadas ao tratamento com AAP também condicionarão certamente as decisões clínicas”, declarou a Prof.ª Cora N. Sternberg, diretora do Serviço de Oncologia Médica do San Camillo Forlanini Hospital, em Roma.
“Ensaios aleatorizados atualmente em curso em cancro da próstata hormonossensível metastático irão avaliar a associação de novas terapêuticas endócrinas e quimioterapias em primeira linha (ARASENS; NCT02799602), assim como os resultados do ensaio PEACE 1 (NCT01957436), no qual dois terços dos doentes irão receber AAP mais docetaxel para o cancro da próstata de alto risco hormonossensível”, rematou.
(1) Abstract LBA31_PR ‘Adding abiraterone acetate plus prednisolone (AAP) or docetaxel for patients (pts) with high-risk prostate cancer (PCa) starting long-term androgen deprivation therapy (ADT): directly randomised data from STAMPEDE (NCT00268476)‘.
(2) James ND, et al. Addition of docetaxel, zoledronic acid, or both to first-line long-term hormone therapy in prostate cancer (STAMPEDE): survival results from an adaptive, multiarm, multistage, platform randomised controlled trial. Lancet. 2016;387:1163–1177.
(3) James ND, et al. Abiraterone for Prostate Cancer Not Previously Treated with Hormone Therapy. N Engl J Med. 2017;377:338–351.
(4) HR<1 favorece abiraterona; HR>1 favorece docetaxel
(5) Fizazi K, et al. Abiraterone plus Prednisone in Metastatic, Castration-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2017;377(4):352–360.


























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